Arquivo: Edição de 23-12-2009

SECÇÃO: Generalidades

“Crónicas de Lisboa”

Porque é Natal
Sem filhos e qualquer outro familiar na cidade, a morte da esposa levou-lhe o último elo, dado que a situação de reforma, também já tinha cortado com ténues vínculos com os ex-colegas da empresa onde trabalhou vários anos. Aderiu às modernidades e, por isso, domiciliou, no seu banco, todos os pagamentos mensais, nomeadamente a renda da casa, o telefone, a água e a electricidade. Com os vizinhos do apartamento onde vivia, raramente se cruzava na escada e muito menos havia qualquer outro tipo de contactos. Vivia, assim, duma forma solitária, “modus vivendi” muito próprio desta vida moderna que nos torna num qualquer “bicho” desta aldeia global.
A notícia correu nos jornais e na televisão e os vizinhos souberam, então, que o “velhote” do seu prédio foi encontrado, já esqueleto, no apartamento onde viveu. Relatava, então a imprensa, que o “velhote” não respondia às cartas do seu senhorio que, há muito, reclamava a devolução do apartamento arrendado há anos. Por isso, a polícia municipal foi chamada, pelo tribunal, para arrombar a casa e deparou, então, com os restos ósseos do velhote, sentado no sofá da sala. Dos seus equipamentos domésticos, só o telefone se mantinha operacional e a televisão, sua companheira de solidão por muitos anos, tinha-se avariado, bem como os restantes equipamentos. Todos os meses, os débitos desses fornecedores eram cobrados, directa e automaticamente, na sua conta bancária, que continuava com saldo, tal como a renda o foi, até que o senhorio denunciou o contrato e iniciou o processo burocrático de rescisão do arrendamento. Obviamente, não obtinha resposta do inquilino, que há muito que se tinha cansado da profunda solidão em que vivia.

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Pensar-se-á que esta história é ficcionada, mas na realidade ela aconteceu numa importante cidade europeia, num dos países mais desenvolvidos, (ainda há pouco tempo se “repetiu” em França com um nosso emigrante) e tem acontecido também por cá, na nossa rua ou mesmo no nosso prédio, porque esta é uma situação cada vez mais comum nesta vida moderna que nos leva a cortarmos com elos familiares ou de amigos e cairmos na solidão. Infelizmente, esta não é só uma “doença de velhos”, porque pode atingir até as próprias crianças, mas a terceira geração acaba por ser a mais atingida. A vida moderna levou à “falência” do modelo familiar antigo, que assentava na coabitação de várias gerações na mesma casa ou na mesma localidade. Famílias pequenas, por vezes mono parentais, a viverem longe umas das outras e em espaços reduzidos, lutando pela sobrevivência nas cidades cada vez mais “frias”, vão cortando com os elos familiares e afectivos. Por outro lado, o aumento da longevidade das pessoas vai criando um crescente “exército de velhos” que, por vezes, têm todos os bens materiais mas estão completamente isolados dos seus familiares ou, em muitos casos, já nem os têm. Assim, apesar do progresso material das sociedades ocidentais, há valores que se vão perdendo e a “doença da solidão” vai fazendo as suas vítimas, sendo que estas, as doenças do foro psíquico, mesmo nas pessoas activas, cresce nos países desenvolvidos e o suicídio, como rotura violenta com a vida, poderá vir a ser, dentro de alguns anos, a segunda causa de morte mundial, de acordo com a projecção da OMS (Organização Mundial de Saúde). É urgente que se encontrem novas formas de organização da família, da sociedade, do trabalho, do urbanismo e de outras manifestações sociais, sob pena da vida moderna ser bastante penosa, apesar do desenvolvimento científico da humanidade.
Contudo, em época de Natal, como a que vivemos, ainda conseguimos arranjar forças e dinheiro (como será o Natal daqueles milhares e famílias que perderam o emprego e a sua fonte de rendimento?), apesar de muito influenciados pelo marketing do consumismo, para trocarmos sorrisos e prendas com os familiares, amigos, colegas e mesmo com os vizinhos ou os “sem abrigo”, mas, infelizmente, estas manifestações de solidariedade acabam logo de imediato e, por vezes e nós próprios, mergulhamos novamente na solidão e no isolamento físico e social que pode fazer perigar a nossa própria sobrevivência. Neste estado de alma, a vida pode “perder sentido” e se a solidão dói todo o ano, dói ainda mais nesta época em que alguns ainda têm motivos para serem felizes. Olhemos à nossa volta, no nosso prédio, na nossa rua, no nosso emprego e na nossa família e estendamos a nossa mão e com um sorriso, possamos ser um “porto de abrigo para vidas em risco”. Porque é Natal (e que o seja todo o ano), vale a pena pensarmos nisso ou então essa palavra vai perdendo, com o tempo e os modos, a sua magia. Como era lindo o Natal de outros tempos!

Serafim Marques
Economista

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