Arquivo: Edição de 11-12-2009

SECÇÃO: Região

O Presépio das Dominicas

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No Natal da minha infância, a minha igreja paroquial, a chamada “igreja das Dominicas”, apresentava todos os anos um presépio majestoso que ocupava uns bons metros quadrados do altar-mor. Na sua confecção, também eu colaborava, trazendo da Penha o musgo que iria depois forrar todo o presépio, no qual seriam desenhadas com serrim caprichosas linhas, a simular as veredas das colinas de Belém.
Esse presépio era uma verdadeira obra de arte, e por isso a sua elaboração iniciava-se com certa antecedência.
Quando me lembro do presépio da nossa igreja, vem-me sempre à ideia o Senhor Padre Nunes, de saudosa memória. Era capelão da igreja de S. Dâmaso, antes dela emigrar para as bandas do Castelo, e, além disso, era um especialista de Liturgia de sólida reputação que me habituei a ver como mestre-de-cerimónias nas missas cantadas.
Pois esse sacerdote vinha muitas vezes celebrar missa na igreja das Dominicas, sendo memoráveis as suas implicâncias sempre que deparava com qualquer pormenor que ofendesse as regras da Liturgia.
Certa altura, ele veio celebrar missa às Dominicas durante vários dias a fio, em Dezembro. Num desses dias (faltavam uns oito dias para o Natal), ele entrou na igreja, ajoelhou-se nos degraus do supedâneo para uma breve oração e deu uma mirada ao presépio, já completo, que se erguia ao pé. Ao entrar na sacristia, perguntou: “Aqui, nesta igreja, festeja-se hoje o Natal?...”. E como todos os presentes o olhassem com espanto, o Padre concluiu: “É que, como no vosso presépio já está o Menino Jesus e tudo, pensei que ele aqui tivesse nascido mais cedo…”. Avisada a zeladora, veio apressadamente recolher a imagem do Menino que guardou no arcaz da Sacristia.
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No dia seguinte, o Padre Nunes apareceu de novo na igreja para celebrar. Desta vez, o reparo foi outro: “Ouçam lá: no vosso presépio Nossa Senhora e S. José estão a adorar o quê?... as palhinhas?... a vaca… ou o burrinho?”. Realmente, o presépio, embora sem a imagem do Menino, mantinha nos seus lugares todas as outras peças. E lá veio a zeladora, ainda mais envergonhada, recolher as imagens de Nossa Senhora e de S. José (à cautela, trouxe também a vaca e o burrinho).
Passou-se mais um dia, e de novo o Padre Nunes apareceu nas Dominicas para celebrar. Na sacristia estava um magote de gente curiosa, “O que é que ele irá dizer desta vez” – segredavam. O Padre entrou na sacristia e começou a paramentar-se sem nada dizer. Até que, a certa altura, perguntou: “Quantos dias faltam para o Natal?”. Os circunstantes, entreolharam-se, intrigados, e responderam em coro: “Cinco dias”. O Padre Nunes gozou mais uns momentos de silêncio e disse: “É curioso: o Natal é só daqui a cinco dias, mas no vosso presépio, os anjos não esperaram que o Menino nascesse, já lá estão a anunciar o Natal aos pastores das montanhas, e estes já estão a chegar à porta da gruta. Coitadinhos: vão ter de esperar cinco dias até que cheguem José e Maria…”.
A zeladora, avisada, recusou-se a tirar as imagens do presépio.
A partir desse ano, o presépio passou a ser construído na véspera de Natal, com todas as imagens nos seus lugares. E nunca mais ouvimos os remoques do Padre Nunes.
Ao fim e ao cabo, até gostei da mudança. Antigamente, vendo o presépio sendo construído dia após dia durante largo tempo, já não encontrava nele novidade na noite de Natal. A partir de então, sim, o presépio era a novidade principal da nossa igreja na Noite Santa: era ele que fazia dessa noite uma noite muito, muito especial.

Fernando José Teixeira
1 de Dezembro de 2009

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