Arquivo: Edição de 26-06-2009

SECÇÃO: Informação Religiosa

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Jubileu Sacerdotal (IX)

1959 - 2009


Arciprestado de Guimarães
Em 1978, o senhor Arcebispo Primaz, D. Eurico Dias Nogueira, alterou o processo de nomeação dos arciprestes. De iniciativa exclusivamente pessoal, a nomeação passou a contar com a consulta prévia aos membros do clero de cada arciprestado, por voto secreto e, a partir de 1989, com a reformulação dos estatutos, foi estabelecido o limite de funções por cinco anos, prorrogável por um segundo quinquénio.
Desde logo, Mons. António de Araújo Costa, arcipreste, convocou a assembleia do clero para votar um novo arcipreste, esclarecendo ainda que a sua condição de vigário episcopal o deveria libertar daquele cargo, que desempenhava desde 1947. E aconteceu que, face ao resultado da votação, o Prelado Diocesano homologou o sentido da votação e nomeou-me arcipreste de Guimarães. Uma nova via de acção pastoral, singular e muito exigente, marcaria a minha vida sacerdotal ao longo de 15 anos (1978-1993). Como pároco de São Dâmaso e depois em Nossa Senhora da Oliveira, os campos do tempo e da solicitude pastoral tiveram de ser alargados.
A uma distância razoável do termo daquelas funções, dou graças a Deus por tantos dons recebidos que, um pouco à semelhança da graça sacerdotal, deveriam reverter em glória de Deus e bem da Igreja. Compreendi que o exercício do cargo, como tudo o que na vida é mais nobre, tinha de ser encarado como serviço, serviço, aliás, dimensionado em conformidade com as necessidades e intenções do bispo diocesano, do clero e do povo de Deus. Não era possível passar ao lado das inquietações e tristezas que provinham de qualquer um destes ângulos, ainda que não poucas vezes tivesse de contentar-me com o silêncio e o amargor da incompreensão e do insucesso, humanamente falando, é evidente.
Todavia, muito mais que o desgaste pelas canseiras e trabalhos naquela tríplice missão de serviço à Igreja – bispo, povo de Deus e sacerdotes- valeu a experiência que adquiri. Pude afeiçoar-me melhor à linguagem e acção ditadas pelo Concílio Vaticano II, sentir-me mais pressionado pelos dados lançados para o desenvolvimento da acção litúrgica, profética e sociocaritativa e descobrir que a capacidade de dar-se é um filão nunca totalmente explorado.
À cabeça do serviço estava necessariamente a comunhão e solidariedade institucional , de modo especial com os colegas: uma muleta, ainda que tosca, pode sempre aliviar ou encorajar. De facto senti que, num ou noutro caso, o secerdote passa pelas angústias da solidão, incompreensão, desilusão e até perseguição. Diversas vezes tive de substituir o colega doente, atender a comunidade paroquial que viu o pastor partir para o Pai e ainda, uma ou outra vez, com mandato do senhor Arcebispo, tentar solucionar divergências ou aclarar posições.
As visitas pastorais e as tomadas de posse dos párocos, além de me proporcionarem melhor conhecimento da geografia, designadamente cultural, religiosa e social do arciprestado, quase sempre se transformavam em oportunidades excelentes de satisfazer o desejo insaciável de alegria e comunhão. Momentos que também tocavam profundamente eram as inaugurações de igrejas, residências e centros paroquiais e tantas outras obras de remodelação de edifícios ao serviço da comunidade. Neste campo, o do património logístico e de serviço do arciprestado de Guimarães, é verdadeiramente notável.
A insegurança de pessoas e bens que, nas últimas décadas, tem molestado a sociedade em geral, deixou nalguns padres e comunidades paroquiais cicatrizes profundas. Refiro-me sobretudo a assaltos e arrombamentos de igrejas, umas vezes à procura de dinheiro, outras para levar aparelhagens de som e obras de arte. Mas o inimaginável também aconteceu: a violação de sacrários e profanação das sagradas espécies. Quanto a estes execráveis sacrilégios, retenho bem viva na minha memória, os actos de reparação em duas paróquias: a dor estampada no rosto das pessoas dizia bem alto da fé e amor ao Santíssimo Sacramento.
Graças ao dinamismo dos delegados de zonas e sectores pastorais, era largamente compensador acompanhar o desenvolvimento e aplicação dos programas e normas, chegados por via arquidiocesana ou gerados no seio do arciprestado. Cursos de leitores e acólitos, encontros de coros; cursos de catequese; cursos de preparação para o matrimónio, equipa de entreajuda e documentação conjugal, incremento das equipas de casais de Nossa Senhora; proliferação de grupos de jovens, inspirados em vários carismas; nascimento de dezenas de boletins paroquiais e outros meios de informação; respostas concretas a necessidades económicas de famílias e até a solicitações de âmbito internacional, tudo isto patenteava o empenhamento constante do arciprestado no domínio da Liturgia, Catequese, Família, Juventude e Vocações, Comunicações Sociais e Acção Sociocaritativa.
Entenda-se bem que nada disto era novo, nem deixou de ser; somente me move a intenção de vincar bem quão gratificante foi para mim conviver por dentro com todas estas realidades.
O Congresso Histórico sobre Guimarães e sua Colegiada (1979), a processo de constituição e erecção canónica da paróquia de Nossa Senhora da Conceição (1981), a Campanha de auxílio a Moçambique e à Etiópia, a peregrinação de João Paulo II ao Sameiro (1982), o Ano Santo da Redenção (1983), o Ano Internacional da Juventude (1985), a celebração do Bimilenário de Nossa Senhora (1985), o Centenário da Peregrinação à Penha (1993), entre outros acontecimentos de expressão de relevo, constituíram, na verdade, marcos que naturalmente sacudiam quaisquer acomodações de quietismo ou monotonia.
Pelo meio do meu serviço como arcipreste, em 1985, a benevolência do senhor D. Eurico Dias Nogueira levou a que me fosse atribuído o estatuto honorífico de capelão do Santo Padre com o título de monsenhor.
Foram muitos os momentos de sofrimento pela perda de irmãos no sacerdócio, ao longo destes 50 anos, muitos dos quais faleceram durante o período de 1978-19993: alguns casos foram motivo de dor acrescida, pelas circunstâncias em que ocorreram: dois, vítimas de acidente de viação; um, vilmente assassinado e outro quando anunciava a alegria da Páscoa aos seus paroquianos. Em nota à parte evoco a memória de todos. (continua)

Lima de Carvalho

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