Arquivo: Edição de 26-06-2009

SECÇÃO: Generalidades

D. Afonso Henriques

Há uns cem anos, em face das recentes descobertas de ossadas de hominídeos na África do Sul, alguém perguntou ao Abade Breuil onde se situava “o berço da Humanidade”. O erudito Abade sorriu, e respondeu com humor: “Não sei ao certo, porque esse berço tem rodas e, se hoje está na África, receio bem que, de um momento para outro, ele se mude para a China, ou para a Índia… ou até para a Europa”.
Esta anedota veio ao meu espírito quando há dias alguém me perguntou se Guimarães era, de facto, “o berço de D. Afonso Henriques”. Respondi-lhe como o Abade Breuil, “mutatis mutandis”. Graças à Comunicação Social e, sobretudo, à Internet, tudo o que se pensa e que se diz tem circulação planetária. Sendo assim, não me surpreenderá que nos próximos tempos venha outra terra deste abençoado Portugal a reivindicar o privilégio de ter visto nascer o nosso primeiro rei.
As verdades históricas são raras, e, quanto mais antigas, mais raras. Por outro lado – e nós esquecemos disso com facilidade - só são verdades históricas até prova em contrário. É por isso que desconfio de quem nos apresenta “verdades definitivas”: a experiência aconselha a que deixemos o espírito aberto, pronto a acolher novas hipóteses, desde que credíveis, evidentemente.
Em 1911, Guimarães celebrou o VIII Centenário do nascimento de D. Afonso Henriques. Naquela altura, todos acreditavam, (com Alexandre Herculano, após a sua leitura da “Crónica dos Godos”), que o nosso rei teria nascido em 1111. Passaram-se os anos, os historiógrafos mudaram de opinião, e será no ano que corre, em 2009, que se vai celebrar o IX Centenário do seu nascimento.
Durante muitos séculos, os portugueses acreditaram que foi Guimarães o seu berço, o que explicava que a parte de leão dessas comemorações se fizessem em Guimarães. Mas, porque também esse berço tem rodas, houve nos últimos tempos quem, menosprezando tão venerável tradição, se lembrasse de o transportar para outras paragens: primeiro para a Vila da Feira, depois para Coimbra, mais recentemente, para Viseu. Não porque tivesse sido descoberto um documento novo, de maior peso, que destruísse o valor probatório dos que já se conheciam: não, as cartas são as mesmas, outra é a maneira de as baralhar.
Mas ninguém apresentou prova cabal e definitiva em suporte da sua crença: apenas hipóteses, mais ou menos plausíveis.
Esse digladiar de hipóteses tem servido, isso sim, para um exacerbar de bairrismos, que enchem as páginas dos jornais e obrigaram as pessoas graves das terras envolvidas a fazer um acto de fé no “politicamente correcto”: na crença de que D. Afonso Henriques nasceu na sua terra, “com activo repúdio de qualquer ideia subversiva que sustente o contrário”.
Ninguém me pediu esse acto de fé, nem eu próprio sinto necessidade de o fazer para que seja reconhecida a minha qualidade de “vimaranense”, nascido e criado em Guimarães. Mas não vejo inconveniente em definir aqui a minha posição: hipótese por hipótese, até que alguém apresente prova insofismável em favor de tese contrária, continuo fiel à venerável tradição que coloca em Guimarães o berço do nosso primeiro rei. E se alguém me exigisse razões tiradas da História para apoiar a minha crença, limitar-me-ia a reproduzir o arrazoado, curto mas convincente, publicado pela Sociedade Martins Sarmento em 15 deste mês, cujos “considerandos” e “finalmentes” assino por baixo.
Alguém disse que “as origens são sempre obscuras”, principalmente porque só muito tempo depois, quando uma realidade se consolida e se robustece, é que os curiosos sentem a necessidade de encontrar uma explicação para as suas origens. E a experiência mostra que quando não encontram factos históricos que saciem a sua curiosidade, tecem-se episódios fantasiosos à volta dos factos conhecidos. Esses episódios transformam-se em lendas, e estas em tradições, que ganham raízes tão fortes que perduram ao longo dos séculos, aceites como se de verdade histórica se tratasse.
São como trepadeiras que se enrolam ao redor do tronco de árvores seculares: chegam a adquirir tal pujança que escondem o tronco que a sustenta: o observador julga ver nelas um facto histórico comprovado quando vê, apenas e só, a trepadeira da tradição que cresceu ao seu redor. Mas o tronco da verdade histórica está lá, embora escondido.
Em D. Afonso Henriques, quase tudo é do domínio da tradição.
Era rapaz, e alguém afirmou que D. Afonso Henriques nasceu no nosso Castelo: lembro-me até de ver numa das suas torres um berço que - dizia o cicerone - recebera o corpo de D. Afonso Henriques recém-nascido. Aprendi também que ele foi baptizado em 1106 na capela de S. Miguel do Castelo pelo arcebispo S. Rosendo (o que não seria fácil porque nessa altura ainda não existia esta capela e, pior, ainda não existia D. Afonso Henriques). Aceitando que, de facto, D. Afonso Henriques nasceu em 1109, nessa altura já não era vivo o arcebispo S. Rosendo, falecido em 1108 em Vila Pouca de Aguiar.
Outros episódios históricos da biografia do nosso rei andam embrulhados em lendas maravilhosas: o “milagre de Ourique”, a história do ”bispo negro”, que Alexandre Herculano explorou nas suas “Lendas e Narrativas”, a gesta de Egas Moniz, o mito da prisão da sua mãe, D. Teresa, nas masmorras do castelo de Lanhoso, etc., etc.
Sendo assim, se despojarmos o nosso rei dos ouropéis com que a tradição de muitos séculos o ornamentou que é que sobra?... Sobrará alguma coisa de notável que justifique as celebrações que estamos promovendo em sua honra?...
É evidente que sim, sobraria o mais importante.
Sobrava a batalha de S. Mamede: essa sim, a efeméride de que Guimarães mais se orgulha. Ao nascer em Guimarães (ou noutro sítio qualquer), D. Afonso Henriques não foi tido nem havido; na batalha de S. Mamede ele foi o protagonista dessa tarde memorável, quando Portugal começou a ser Portugal.
Por isso, que me desculpem os que pensam de outra maneira, Guimarães e os vimaranenses devem centrar na batalha de S. Mamede as homenagens ao nosso primeiro rei. Para elas devem ser canalizadas todas as energias do povo desta terra, todos os meios (às vezes tão mal gastos), toda a imaginação e toda a vontade de novos e velhos que se revêem na sua qualidade de ser português. Essa deve ser a nossa batalha: ser feriado nacional o dia 24 de Junho, “Dia Um de Portugal” já não será o objectivo da nossa luta. Queremos mais, muito mais. Queremos que seja o “Dia de Portugal” – sem a batalha de S. Mamede não haveria o Portugal que somos, o Portugal que deu novos mundos ao mundo, o Portugal que Camões cantou nos seus versos imortais, o Portugal amado por tantas comunidades nacionais seme-adas pela terra inteira.

20 de Junho de 2009
Fernando José Teixeira

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