Arquivo: Edição de 27-02-2009

SECÇÃO: Informação Religiosa

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Jubileu Sacerdotal (V)

1959 - 2009
Início da caminhada. O Seminário.

A resposta tantas vezes dada a muitas outras perguntas “quero ser padre”, tomou, finalmente, uma forma decidida, não sem que , conscientemente também, vislumbrasse uma questão incontornável, o problema económico.
Passo a passo, o caminho foi-se aplanando. Primeiro, o anúncio da decisão ao pároco da freguesia, cujo assentimento e conselho foi favorável; a seguir, o exame de admissão ao Seminário de Nossa Senhora da Conceição. Pouco tempo depois, chegava a comunicação de que fora admitido com a descrição das coisas necessárias para o ingresso no Seminário.
Perante esta realidade, toda ela relacionada com custos de ordem material, nada mais poderia fazer, senão esperar que as soluções acontecessem. E, de facto, as ajudas foram surgindo, através da solidariedade de pobres, que eram todos os meus familiares, e alguns benfeitores.
Foi necessário, para o processo de admissão, um atestado de robustez física. A Maria do Céu, prima de minha mãe e minha irmã Olinda, de que falarei mais adiante, acompanharam-me ao consultório do doutor Manuel Melo(1905-1986), de Pevidém. Confesso que considerei grande a ousadia delas em aproveitar a ocasião para lhe pedir que fosse também meu benfeitor. A resposta do bom médico foi pronta e tornar-se-ia progressivamente generosa, no decorrer da caminhada. Foi um coração que se abriu e sempre me acolheu até ao final dos seus dias.
14 de Outubro de 1947, precisamente na data em que completava 11 anos de idade, foi o primeiro dia da formação programada para 12 anos. Acompanhou-me minha mãe e acho que me portei bem, evitando a exteriorização de sentimentos de muitos “cortes “ no âmbito da afectividade. O simples facto de vestir fato preto, chapéu e gravata da mesma cor encarei-o como uma espécie de promoção. Realmente era um mundo novo, que, dia a dia, nas múltiplas actividades de formação intelectual, moral e espiritual, ia alargando horizontes e levantava imprevisíveis interrogações a que o crescimento pessoal não poderia escapar. Dúvidas e incertezas, que, não raras vezes, pareciam passos atrás, tornaram-se em provações muito fortes que, com a graça de Deus, em dado momento, como explicarei adiante, pude vencer.
Guardarei para mim as surpresas, alegrias e tantos momentos de felicidade que a vida no Seminário e em tempo de férias me proporcionavam. Curioso, porém, no meio de tudo isto, era a sensação, que se tinha, de que a corrida para a meta demorava uma eternidade.
Dos Superiores dos Seminários, professores e formadores, guardo as melhores recordações, mesmo quando os métodos ou a interpretação de princípios e regras disciplinares pareciam duros de mais.
O programa de formação e preparação era distribuído por três cursos que se desenvolviam em três casas diferentes: Humanidades (cinco anos) no Seminário de Nossa Senhora da Conceição; Filosofia (três anos) no Seminário de S. Tiago e Teologia (quatro anos no Seminário Conciliar de S. Pedro e S. Paulo. Devido ao crescente número de seminaristas, a partir de 1949, salvo erro, os alunos do 5º ano de Humanidades foram deslocados para o Seminário Conciliar.
Era rigoroso o regime de internato; vindas a casa só nas férias de Natal, Páscoa e Verão e, excepcionalmente, por razões muito pertinentes, como o falecimento de familiares muito próximos. A monotonia natural da vida programada à hora e repetida semana a semana era, todavia, transformada em ritmo alegre, através de pausas e actividades bem apetecidas: as visitas de família, que podiam ser quinzenais, os passeios às quintas e domingos. Os pontificais na Sé Catedral, a festa da Padroeira, as récitas teatrais nos três dias das férias de Carnaval, as procissões e outros eventos ocasionais eram intensamente vividos à distância e serviam de marca dos períodos escolares. O terceiro período, esse beneficiava sempre de uma riqueza especial com o “Mês de Maria”.
A natureza em flor e a beleza das canções interpretadas pelo grupo de cantores, sob a direcção do Padre Manuel de Faria Borda, nalgumas das quais, com os meus 11 anos, desempenhei a função de solista, faziam daquela devoção um meio excelente de consciência e crescimento vocacional.
Jamais esquecerei que foi precisamente no dia 13 de Maio de 1949, ao fim das orações da manhã e meditação, que precediam a celebração da Eucaristia, que eu, à semelhança de outros colegas que se dirigiam ao lugar do presidente, invariavelmente o director do Seminário, Monsenhor Manuel Luís da Costa Azevedo, para pôr em comum intenções particulares, me senti, pela primeira vez, impelido para implorar uma graça especial. A Minha irmã Olinda (1927-1981), tinha partido para Fátima confiante na intercessão de Nossa Senhora para a cura dos seus padecimentos que a colocavam já em fase terminal de vida. Naquele momento, senti-me feliz por ter sido capaz de vencer um certo acanhamento de ir junto do director, o qual, aliás, imediatamente fez eco da minha intenção. Só passados alguns dias é que tive conhecimento da cura miraculosa. A minha irmã que, com 21 anos de idade e 38 quilos de peso, sobrevivia há bastante tempo a soro e aplicações de morfina, no momento da bênção aos doentes com que encerrava a comemoração aniversária da aparição de 13 de Maio, sentiu-se completamente curada. Um ano depois, a Olinda ingressou na vida religiosa, na Ordem das Dominicanas, tomando, no acto da consagração, o nome de Irmã Maria de São Vicente Ferrer. Não tenho dúvida nenhuma de que a sua vida toda, especialmente a partir da sua entrega a Deus, foi para mim uma torrente de graças.
Tal como relativamente a minha mãe, as memórias desta queridíssima irmã permanecerão nos escaninhos do mais profundo afecto. (continua)

Lima de Carvalho

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