Arquivo: Edição de 30-01-2009

SECÇÃO: Informação Religiosa

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Jubileu Sacerdotal (IV)

1959 - 2009
Terreno favorável a vocações

A freguesia de Joane bem pode dizer-se terra privilegiada no que diz respeito à vida religiosa e acção pastoral. O pároco que me baptizou, Cónego Lino de Araújo Campos (1883-1958), desde data que não sei precisar, mas antes de 1936, teve sempre um vigário cooperador. As memórias mais antigas que retenho da acção dos coadjutores são as dos padres António de Oliveira e Justino José Correia: este, o meu primeiro confessor, que me deu também o alimento da eucaristia pela primeira vez; daquele recordo os relatos que os meus irmãos mais velhos faziam da assistência e acompanhamento nos trabalhos da Acção Católica e dos passeios que, em domingos de verão, depois das devoções da tarde na igreja, faziam à ínsua do rio Ave, em Ronfe. Nem em sonhos me passava pela cabeça que, um dia, haveria de tê-los, como irmãos mais velhos, na acção pastoral do arciprestado de Guimarães.
No meu tempo de catequese, havia 12 sacerdotes naturais da freguesia, que, de vez em quando, eram vistos na terra de visita às famílias ou em gozo de férias, os quais, como é óbvio, celebravam na igreja paroquial. Quatro deles, Adão Salgado Faria (cónego), Rodrigo Ernesto de Carvalho (cónego), Benjamim Salgado e Américo Ferreira Alves (monsenhor), que eram professores do Seminário e também o doutor António da Silva Rego, que vivia em Lisboa e estava ligado estreitamente à Procuradoria das Missões e ao Instituto de Ciências Históricas Ultramarinas, com grande ardor apostólico e em consonância com os responsáveis da paróquia, imprimiam, de facto, um ritmo notável à vida religiosa e cristã da comunidade.
Todas as festas, encontros, devoções e celebrações eram pretexto para falar e rezar pelos Seminários e Missões. As famílias e até a própria escola abriam-se a este entusiasmo como se fizesse parte da sua missão. Especialmente na minha primeira escola, lá estava o pretinho, um boneco que abanava a cabeça quando se depositava a moedinha para as missões e a distribuição da Cruzada Misssonária, um jornal dos Padres da Missão, Cucujães. Em tempos de crise – ll Grande Guerra, multiplicavam-se os peditórios para a subsistência de centenas de seminaristas e obras do Seminário. Inesquecível obreiro de amor efectivo para com o Seminário foi o padre Domingos da Silva Gonçalves (mais tarde bispo da diocese da Guarda), director da Oficinas de S. José de Guimarães e director também das Obras das Vocações e Seminários: tenho bem vivo o arrebatamento em que ele envolveu uma multidão de pessoas no final da Santa Missão (missão popular com 15 dias de pregação) em 1943, tinha eu seis anos de idade.
Quase todos os anos, um ou mais adolescentes se candidatavam ao Seminário, grande parte dos quais, aliás e como bem se compreende, mais cedo ou mais tarde, enveredavam noutras direções. Quando, em 1947 entrei para o Seminário, éramos 10, dos quais cinco receberam a ordenação presbiteral. A partir de 1959, foram ordenados mais oito sacerdotes.
Agentes muito importantes da pastoral vocacional encontravam-se na juventude, incluindo a feminina, em dois aspectos consideráveis: o respeito que manifestavam pelas vocações à vida consagrada em geral e a acção concreta, através de momentos de oração, distribuição de propaganda, designadamente missionária, angariação de fundos para os Seminários e Congregações Religiosas. Um nome que não consta na toponímia local, mas que bem merece uma memória para que a todos sirva de testemunho, é Rosa Vieira Mendes, a Rosinha das Missões. Aparentemente pouco dotada, viveu à custa do seu trabalho em serviços variados, na sua condição de solteira dedicou-se à família e sobrou-lhe longo tempo para se entregar ao apostolado em geral e, de modo particular, à propaganda e conquista de vocações à vida religiosa.
As reuniões de piedade mensais da Cruzada Eucarística, dos Movimentos Operários J.O.C, (F), L.O.C. (F), da Associação das Filhas de Maria, davam às celebrações de praticamente todos os domingos dos doze meses do ano um tom especial que era vivido em âmbito integral nos tríduos, procissões e comunhões pascais.
Vivências luminosas de fé – e não eram tão poucas na roda do ano – era o Senhor aos Enfermos. À noitinha, uma hora antes da saída da procissão, o toque convencional do sino “chamava” a Confraria do Coração de Jesus , de que a generalidade dos paroquianos eram irmãos, para acompanhar Jesus Eucaristia a algum enfermo que, quase sempre, era preparado espiritualmente com antecedência. Ponto de honra era que ao menos um homem de cada fogo participasse na guarda de honra e louvores a Jesus Sacramentado. As pessoas que ficavam em casa colocavam uma luz à janela, se possível uma vela de cera, e acompanhavam com recolhimento o cântico Bendito e louvado seja o Santíssimo Sacramento da Eucaristia, que em uníssono, quebrando o silêncio da noite, era elevado ao Céu. Muitas vezes não se sabia quem era o destinatário e as pessoas, pela direcção que as vozes tomavam, iam-se interrogando: será alguém das Fontes, das Charrueiras, de Celorico... Não poucas vezes acontecia que a resposta vinha logo no dia seguinte: morreu o irmão (ã) N...
É pena que a referência à sementeira de sinais de vida cristã e vivências pertinentes ao chamamento à vida sacerdotal e consagrada em geral, por motivos óbvios, tenha de ser tocada ao de leve. Permita-se-me, no entanto, incluir uma nota pessoal de meus pais (António Couto de Carvalho (1891-1966) e Ana Maria de Lima (1895-1967). Diz o provérbio: os exemplos arrastam: os meus pais não perdiam tempo nem deixavam passar ao lado qualquer ocasião ou oportunidade para a educação e alimento da fé. Novenas, mês de Maria, mês de São José , mês das Almas, primeiras sextas-feiras do mês ... em tudo a família participava, salvo se havia colisão com horários de tarefas laborais ou motivos de força maior. A recitação diária do terço em família era religiosamente observada.
Gostaria de partilhar as memórias de minha mãe, particularmente da devoção à Senhora do Sameiro, mas acho melhor retê-las no coração. (continua)

Lima de Carvalho

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