Arquivo: Edição de 25-07-2008

SECÇÃO: Região

XIV - A Torre da Senhora da Piedade

A defender a Porta da Vila (ainda hoje assim chamada), havia uma torre chamada de S. Domingos por estar virada para o mosteiro dominicano, mas que, a dado momento, passou a ser denominada torre da Senhora da Piedade, do nome de uma capela existente no seu interior, onde se venerava uma imagem de Nossa Senhora da Misericórdia, depois chamada Senhora da Piedade. Dessa torre existe uma imagem, gravura de 1747, existente em Lisboa, no Museu Nacional de Arte Antiga.
O “Tombo dos bens do concelho de 1612” fala dessa capela no “titello de duas boticas que estaõ dentro da Torre de saõ Domingos debaixo da capella que ora possuem Antonio gonçallues e sua molher”. Essas boticas dispunham de uma porta para norte e outra para sul, abrindo-se nesta última uma porta mais pequena com escada que dava acesso à capela, no piso de cima. Pagavam de foro um vintém cada ano para o Concelho, e todos os sábados três reis de azeite para a lâmpada de Nossa Senhora que está na dita torre. e todas as vésperas da dita Senhora meio quartilho de azeite, sendo-lhes vedado que fizessem fumo de lenha ou carvão debaixo da dita Senhora por amor dela.

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Consta do Compromisso da Santa Casa da Misericórdia de Guimarães, reformado em 1609, que passavam por essa capela os cortejos que acompanhavam os padecentes ao patíbulo: “Quando alguma pessoa houver de padecer por justiça irão, da Mesa, acompanhá-lo os dois irmãos do mês com seus balandraus e todos os capelães da casa, e irá a bandeira e duas tochas acesas (…) irão até à porta da cadeia onde esperarão até a justiça tirar o padecente que virá vestido em uma alva branca de pano de linho”. O cortejo seguia o seu caminho e, “chegando à porta da vila de S. Domingos [Porta da Vila], no altar que está dentro da torre, se dirá missa para que o padecente se encomende a Nosso Senhor…”, seguindo depois o cortejo até ao lugar onde ele tiver de ser executado.
Em 1793, esta torre foi afectada na sua solidez pela demolição da muralha do Toural que lhe era adjacente (já tinha uma esquina fendida, provocada pelo terramoto de 1755). A 22 de Outubro de 1793, o procurador da comarca escreveu ao Senado da vila informando-o que não podia demolir a muralha do Toural, em cumprimento de uma ordem da Rainha, sem que fosse gravemente afectada a estabilidade da torre. Pedia, portanto que se solicitasse autorização da Coroa para que a torre fosse também demolida. O Senado concordou e em 6 de Novembro seguinte a nobreza e o povo da vila deram igualmente o seu acordo. Levada a súplica às instâncias superiores, por aviso régio de 16 de Maio de 1794, a Coroa anuiu ao solicitado.
Com a demolição da torre da Senhora da Piedade e da sua capela, a imagem da Virgem que lá existia, escultura do século XVII, acompanhou a sua irmandade para a igreja paroquial de S. Paio. Aí a encontrou o Abade de Tagilde em 1904. Com a demolição desta igreja, a imagem passou por artes mágicas para a posse de um antiquário e dele para o Museu de Alberto Sampaio, onde se encontra.

Fernando José Teixeira
16 de Julho de 2008

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