Arquivo: Edição de 20-03-2008

SECÇÃO: Região

III – As Alpendradas do Toural

Já o Tombo da Câmara de 1612 fala das “casas com alpendrada no Toural, que pagavam foro”. Esses foros constituiam então uma importante fonte de rendimento camarário. Em artigo publicado no Archivo Pittoresco, conta Vilhena BARBOSA que “até ao século XVIII, as casas desta praça eram quase todas de alpendrada sobre colunas de pedra, ao uso antigo”.

Existe bastante documentação que refere essas alpendradas. Limito-me a referir um prazo, datado de 28 de Maio de 1721, feito pelo juiz e oficiais do hospital da rua da Travessa a Pedro Duarte Guimarães e sua mulher, onde se refere uma casa do Toural, com alpendrada e quintal, que fora do Padre José Amaro da Silva.
A partir de certa altura, com autorização superior, começaram a tapar-se os alpendres. Esse procedimento era corrente em 1737 pois, a 30 de Agosto desse ano, Alexandre de Palhares e Brito, fidalgo da Casa Real, argumentando que outros já o tinham feito anteriormente, obteve permissão para que lhe fosse permitido tapar os alpendres que havia nas suas casas do Toural.

Que essa tapagem tanto se operava tanto no lado norte como no lado poente prova-o uma escritura de 2 de Abril de 1749, onde António Dinis e Sousa, Francisco da Silva Freitas e Azeredo, José de Sousa Mesquita e João Dias Vieira manifestam o seu propósito de tapar o alpendre das casas em que viviam, tal como o tinham feito, com provisão de Sua Majestade, alguns moradores do Toural “que fica da outra parte”.

Por essa altura, o lado poente do Toural começou a ser afectado pela construção da basílica de S. Pedro, cuja primeira pedra foi colocada em 1752, embora a sua irmandade já dispusesse de autorização camarária anterior a 1737 para a sua edificação. Porque se revelava indispensável ao bom andamento da obra, a Irmandade comprou ao capelão António da Costa e a Manuel Vieira, em 31 de Maio de 1752, umas casas do Toural, pegadas ao templo pela parte do norte, que confrontava da parte do poente com um beco “que algum dia fora rua pública”, com entrada e saída por baixo de umas casas da rua das Lagens do Toural: trata-se do edifício do antigo Café Mourão, que tinha saída pela rua de Camões, saída ainda hoje existente.

Em 18 de Março de 1782, uma provisão régia veio reconhecer que a Irmandade já tinha a sua capela no Toural, onde funcionava, “embora sem regularidade nem arquitectura, por modo de barraca de madeira entre casas suas, tendo apenas 20 palmos de largura e 80 de comprimento”, e autorizou que a pudesse ampliar em terreno seu e dar-lhe maior decência. Para esse efeito, a Irmandade adquiriu outras casas do Toural, algumas delas alpendradas, como as que adquiriu a António da Costa Lemos e mulher em 27 de Setembro de 1782: casas com frontaria de pedra, janelas rasgadas e quintal.

Pouco depois, a câmara, com base em provisões régias, iniciou a demolição das galerias alpendradas que definiam as frentes do Toural, bem como a destruição das “rótulas” e “crivos” que revestiam as fachadas de muitas habitações da burguesia e de artesãos.

A fachada do lado norte do Toural foi destruída quase inteiramente por um pavoroso incêndio às 2 horas da madrugada de 4 de Junho de 1869. Escapou apenas a casa da esquina, virada para a actual rua Paio Galvão, por ser inteiramente de pedra e de construção moderna. Houve quatro mortos e centenas de feridos devido a uma explosão de pólvora e gás no armazém do negociante João José de Sousa Aguiar, onde pegara o incêndio. No lugar das casas carbonizadas foram levantadas casas de boa traça, embora muitos tenham lastimado que não tivesse sido aproveitada a ocasião para ampliar o Toural, alinhando essas fachadas pela esquina do lado norte da rua de D. João I.

Fernando José Teixeira
12 de Março de 2008

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