Arquivo: Edição de 27-10-2006

SECÇÃO: Generalidades

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O Nosso Mundo

Acordar a Sorrir
Um dia destes, tive um sonho fora do vulgar. Alguém me chamou e convidou para um passeio. Sem poder oferecer resistência, fui. Então, respondendo várias vezes “já vou, já vou”, senti-me a levitar. Subindo, subindo sempre, pude apreciar as torres das cidades, e verifiquei que a paisagem, vista do alto, é um espectáculo sem igual!
Continuando a subir, vi o mar, esse “chão azul” maravilhoso, bem como os golfinhos que picavam o plano dessas águas marinhas, a respirar. De seguida, entrei por sobre as nuvens e concluí, que me dirigia para oriente, revendo a África, essa estouvada e sedutora terra que parece hipnotizar até os que nunca tiveram alma cigana.
Por fim, já bem longe e bem alto, levitando pelos céus sem fim, alguém, de tapete branco nas mãos, obrigou-me a parar e, segurando-me, disse:
- Vais na direcção do Reino do Céu. Como te justificas para transpor a Divina Porta?
- Bom, Anjo meu. Não estava nos meus planos encontrar-me contigo tão cedo. Uma vez que o percurso está feito e para trás não se pode voltar, muito posso contar e pouco me posso justificar. Devo dizer-te Anjo meu, que a minha infância foi desprovida de suficientes agasalhos no frio e a qualidade era precária. De alimentos, saboreei alguma mercearia, hortaliça e, as quantidades, ainda hoje penso que eram insuficientes. Mas devo confessar-te que muitas vezes senti desejos de uma banana ou de um pouco de carne e, possível, só uma vez de vez em quando. Cresci na confusão e no labirinto de homens velhacos e loucos: meninos, batiam-me, porque eram ricos, mais velhos ou mais atléticos que eu; os adultos reprimiam-me, porque tudo era mal feito, queixavam-se; como adolescente, fui traquina, teimoso e, sempre em desfavor dos companheiros, perspicaz; como jovem e a caminho de adulto, namorei imenso, amei pouco e menti muito; fui egoísta, estoira-vergas, malicioso, e pratiquei a maledicência, principalmente contra os escolhidos pelo meu Senhor. Também, Anjo meu, participei numa guerra, não como mercenário - que são a diarreia dos prepotentes - mas obrigado. Embora não visse sentido nessa guerra tão distante do meu país, como autoridade no terreno, nem sempre fui justo e nem sempre obedeci. Esbanjei sem tréguas e sem necessidade, forças físicas e, fui por vezes, prepotente e desinteressado dos problemas, das lágrimas e da fome dos outros. Nessa guerra, talvez tenha matado, uma vez que os homens que me estavam confiados, apareciam mortos também. A seguir, Anjo meu, duvidei dos meus familiares, dos meus amigos, de quase todos os homens e tornei-me egoísta, jactante, individualista e até perdi a Fé! Nestes últimos anos, paciente Anjo, andava a sentir-me confuso, sem fé alguma nos homens, com medo de todos: uns, porque não cumpriam (nem cumprem ainda hoje) os direitos dos homens, não sentiam (nem sentem ainda) respeito e amor pela humanidade; outros, roubavam (e roubam), eram (e são) mentirosos, egoístas, vaidosos, vingativos, falhados que sugavam (e ainda sugam), traidores, invejosos. E ainda conheci e conheço os avarentos, os burocratas, os imbecis, os madraços, os cobardes, os homens de alma desabitada, os loucos, os perversos e tantos outros que brincam com a saúde e os direitos daqueles que estão permanentemente sob a alça do seu (deles) ponto-de-mira. Assim, Anjo meu – paciente Anjo – também fui vítima de muitos: roubado no “Ter” e no “Ser”. Fui excluído da cultura, da educação e, de certo modo, das profissões que sonhei, etc, etc. Desta forma me moldaram e me trataram os homens que vivem lá em baixo! Finalmente, Anjo do meu Senhor, queria afirmar-te que, na vida, sempre caminhei devagar, é certo, mas nunca parei. Andei sempre atento, rindo e chorando, mas sem nunca negar ou trair o meu país como alguns fizeram e disso hoje se ufanam; ultimamente, procurei conhecer melhor o meu Deus e, fruto desses conhecimentos, dei-me aos outros sem olhar a classes ou raças: dos que tive conhecimento e soube estarem moribundos, a quase todos visitei; sempre que vi necessário, dei algum do meu pouco pão; quando se juntaram dois fatos no armário e um ficou disponível, eu próprio o coloquei aos ombros do nu. Desse modo, me modifiquei: fui ainda compreensivo, tolerante, alegre, sério e muito amei. Portanto, Anjo que me segues e interrogas, assim me apresento ao meu Senhor, que nestes últimos anos segui, servi e amei com todas as forças dos meus membros, com todo o sangue das minhas veias e com toda a força da minha capacidade intelectual.
Que o Imperador do Céu e da Terra – continuei – me não veja como totalmente imperfeito, mas sofredor também e que a Virgem Maria Sua Mãe interfira, de forma que premeie este débil mas convicto seguidor. Ecce homo, Anjo meu!
- Bom, caro peregrino dos mares e dos céus – interrompeu o Alguém do tapete branco. Por mim, julgo-te justificado e aproxima-te da Porta que pretendes, pois...
E com esta última palavra “pois”, do Anjo meu, acordei e concluí que foi maravilhoso ter acordado e a sorrir!
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Artur Soares

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