Arquivo: Edição de 13-10-2006

SECÇÃO: Informação Religiosa

A caridade, alma da missão

Mensagem de Bento XVI para o Dia Mundial das Missões 2006
Queridos irmãos e irmãs!

1. O Dia Mundial das Missões, que celebramos no Domingo, dia 22 de Outubro, oferece a oportunidade de reflectir, este ano, sobre o tema: “A caridade, alma da missão”. Quando a missão não se orienta para a caridade, quando não provém de um profundo gesto de amor divino, corre o risco de reduzir-se a uma simples actividade filantrópica e social. De facto, o amor que Deus nutre por cada pessoa constitui o coração da experiência e do anúncio do Evangelho, e aqueles que o acolhem, tornam-se, por sua vez, testemunhas. O amor de Deus que dá vida ao mundo é o amor que nos foi doado em Jesus, Palavra da salvação, imagem perfeita da misericórdia de Deus Pai.
Por conseguinte, a mensagem salvífica pode-se bem sintetizar nas palavras do evangelista João: “Nisto se manifestou o amor de Deus para connosco: em ter enviado ao mundo o seu Filho único, para que vivamos por Ele." (1 Jo 4,9). O mandato de difundir o anúncio deste amor foi confiado por Jesus aos Apóstolos depois da sua ressurreição, e os Apóstolos, interiormente transformados graças ao poder do Espírito Santo, no dia de Pentecostes, começaram a dar testemunho do Senhor, morto e ressuscitado. Desde então, a Igreja continua esta mesma missão, que constitui, para todos os fiéis, um compromisso irrenunciável e permanente.

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2. Desta forma, toda a comunidade cristã é chamada a fazer conhecer Deus, que é Amor. Quis concentrar a minha reflexão sobre este mistério fundamental da nossa fé na Encíclica "Deus caritas est”. Deus permeia com seu amor toda a criação e a história humana. Nas origens, o homem emergiu das mãos do Criador como fruto de uma iniciativa de amor. Depois, o pecado ofuscou nele a marca divina. Enganados pelo maligno, os progenitores Adão e Eva não corresponderam à relação de confiança com o seu Senhor, cedendo à tentação do maligno, que os levou a suspeitar que Ele fosse um rival e quisesse limitar a sua liberdade. Assim, ao amor gratuito divino, preferiram-se a si mesmos, querendo afirmar, desta forma, o seu livre arbítrio. A consequência foi que acabaram por perder a felicidade original, experimentando a amargura da tristeza do pecado e da morte. Deus, porém, não os abandonou, e prometeu-lhes, a salvação, a eles e aos seus descendentes, preanunciando o envio de seu Filho unigénito, Jesus, que revelaria, na plenitude dos tempos, o seu amor de Pai, um amor capaz de resgatar toda a criatura humana da escravidão do mal e da morte. Em Cristo, portanto, nos foi comunicada a vida imortal, a própria vida da Trindade. Graças a Cristo, bom Pastor que não abandona a ovelha perdida, foi dada a possibilidade aos homens, de todos os tempos, de entrar em comunhão com Deus, Pai misericordioso, pronto para acolher novamente em casa o filho pródigo. A Cruz é um sinal surpreendente deste amor. Na sua morte de cruz - como escrevi na Encíclica Deus caritas est – “cumpre-se aquele virar-se de Deus contra Si próprio, com o qual Ele Se entrega para levantar o homem e salvá-lo - o amor na sua forma mais radical. É lá que esta verdade pode ser contemplada. E começando de lá, pretende-se agora definir em que consiste o amor. A partir daquele olhar, o cristão encontra o caminho do seu viver e amar” (n. 12).
3. Na véspera da sua paixão, Jesus deixou como testamento aos discípulos, reunidos no Cenáculo para celebrar a Páscoa, o “mandamento novo do amor - mandatum novum”: “O que vos mando é que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,17). O amor fraterno que o Senhor pede a seus “amigos” brota do amor paterno de Deus. O apóstolo João observa: “Quem ama nasce de Deus e conhece a Deus” (1 Jo 4,7). Assim, para amar segundo Deus é preciso viver n’Ele e d’Ele: Deus é a primeira “casa” do homem e só quem n’Ele se demora arde com o fogo da divina caridade capaz de “incendiar” o mundo. Não é esta a missão da Igreja, em todos os tempos? Então, não é difícil compreender que a autêntica solicitude missionária, compromisso primário da Comunidade eclesial, está ligada à fidelidade ao amor divino, e isso vale para todos os cristãos, comunidades locais, Igrejas particulares e todo o povo de Deus. Graças à consciência desta missão comum, reforça-se a disponibilidade dos discípulos de Cristo em realizar obras de promoção humana e espiritual que, como escrevia o amado João Paulo II na Encíclica Redemptoris missio, “testemunham a alma de toda a actividade missionária: o amor que é e permanece o verdadeiro motor da missão, constituindo também o único critério pelo qual tudo deve ser feito ou deixado de fazer, mudado ou mantido. É o princípio que deve dirigir cada acção, e o fim para o qual se deve tender. Agindo na perspectiva da caridade ou inspirados pela caridade, nada é impróprio, e tudo é bom” (n. 60). Assim, ser missionários significa amar Deus com todo o nosso ser, até, se necessário, dar a vida por Ele. Quantos sacerdotes, religiosos, religiosas e leigos, também nestes nossos tempos, Lhe renderam o supremo testemunho de amor com o martírio! Ser missionários significa inclinar-se, como o bom Samaritano, às necessidades de todos, especialmente dos mais pobres e carenciados, pois quem ama com o coração de Cristo não busca o próprio interesse, mas unicamente a glória do Pai e o bem do próximo. Aqui reside o segredo da fecundidade apostólica da acção missionária, que ultrapassa fronteiras e culturas, alcança os povos e se difunde até aos confins do mundo.
4. Queridos irmãos e irmãs, que o Dia Mundial das Missões seja uma útil ocasião para compreender sempre melhor que testemunhar o amor, alma da missão, é para todos. De facto, servir o Evangelho não deve ser considerado uma aventura solitária, mas um compromisso compartilhado por todas as comunidades. Ao lado daqueles que estão na linha da frente, nas fronteiras da evangelização – refiro-me, agradecido, aos missionários e missionárias – muitos outros, crianças, jovens e adultos, com a sua oração e cooperação, contribuem, através de várias formas, para a difusão do Reino de Deus na terra. Faço votos para que esta comparticipação aumente sempre, graças à colaboração de todos. Aproveito, com prazer, esta circunstância para manifestar a minha gratidão à Congregação para a Evangelização dos Povos e às Obras Missionárias Pontifícias [OO.MM.PP.], que coordenam, com dedicação, os esforços realizados em todo o mundo, em prol da acção daqueles que estão na linha da frente em situações missionárias.
Que a Virgem Maria, que com sua presença junto à Cruz e sua oração no cenáculo colaborou activamente no início da missão eclesial, sustente a sua acção e ajude os fiéis em Cristo a serem sempre mais capazes de amar verdadeiramente, para que, num mundo espiritualmente sedento, se tornem fonte de água viva.
Formulo estes votos do fundo do coração, enquanto envio a todos a minha Bênção.

Vaticano, 29 de Abril de 2006

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