Arquivo: Edição de 29-09-2006

SECÇÃO: Generalidades

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Aluno e Turista

O piloto que dirigia o avião que me transportava a Maiorca, provocou-me a convicção de que se tratava de um óptimo profissional e, sobretudo, possuidor de elevada experiência de voos para aquela zona turística.
Fiquei a pensar, se os pilotos Portugueses se preocupavam em mostrar aos passageiros a vista aérea das nossas localidades, como aquela que nos foi mostrada: Maiorca. Com lindíssimas paisagens, compostas pelas suas lindas praias, azinheiras, amendoeiras, oliveiras centenárias, bosques de pinhais, etc,etc, que, desviando os olhos para a serra Levante ou as montanhas da Tramontana, provoca no observador a certeza de se aproximar dum local privilegiado para um bom descanso.
Deixado para trás o aeroporto, com uma pequena mala (e dentro dela o indespensável para cinco dias de férias), bem como a respectiva máquina de filmar ao ombro, dirigi-me para o hotel que aguardava a minha chegada.
Na cidade, pessoas que iam, outras que vinham e ainda outras que somente procuravam passar o tempo – parando a admirar as novidades locais – sem querer, pois claro, sofro um pequeno encontrão de uma criança acompanhada da familia que seguia em direcção oposta à minha. Seu pai, com certeza, admoestou a criança, sorriu e pediu-me desculpa em perfeito castelhano.
Sorri também ao cavalheiro e disse: “não tem mal, não tem importância alguma”. Mas de repente, reflito: “este cavalheiro já foi Primeiro Ministro de Espanha”. Volto atrás e com um “por favor, só um momento”, o cavalheiro pára, deixa de sorrir e pergunta:
- Em que posso ajudá-lo?
- Peço desculpa – disse, delicadamente. – Mas o senhor não foi já Primeiro Ministro de Espanha?
- Sim, sim. – confirmou.
Sendo assim – disse eu – não se importa que lhe faça duas ou três perguntas que podem ser de grande valor para mim e para o meu país?
- Mas quem é o senhor? – perguntou. – É um jornalista? Um poeta? Um filósofo? Um escritor? Um músico?
- Nada. Não, não sou nada disso! – afirmei. – Sou um curioso, um não-instalado, talvez um pensador ou, quando muito, um turista em Maiorca com muito dinheiro e que no seu país, não tem gosto de o gastar, acrescentei.
- Sim, sim. – sorriu.
E dando-me a entender que estava à minha disposição, perguntei:
- Como é que V.ª Ex.ª, conseguiu com relativa facilidade e em pouco tempo, melhorar a vida dos espanhóis?
Sorriu novamente, cofiou as fartas pontas do bigode e disse:
- Sabe, a diferença entre Espanhóis e Portugueses, é realmente pouca. No entanto, nós políticos, em Espanha, temos de ser coerentes, realistas e, sobretudo, somos preparados para viver na e com a política. Isto é, temos de possuir um currículo político, minimamente satisfatório, para exercer política. Em Portugal, salvo raríssimas excepcções, não é assim. No seu país, apenas são precisos vinte ou trinta dias e a televisão encarrega-se de fazer e mostrar os políticos que forem necessários para vos governar.
Dessa forma, o vosso povo aplaude o “novo-político-feito” e, em eleições seguintes, votam sem saber nada deles, a não ser aquilo que a televisão mostrou ou vendeu. E um político, como sabe, tem que ser inteligente, culto, experiente, e principalmente rico, para não se aproveitar das fraquezas e dos cofres do estado.
Também no meu país, eu tive sempre o cuidado de programar tudo, inclusivamente, pensando sempre nas décadas seguintes àquela que vivia. No seu país não é bem assim: vive-se o presente, canta-se o passado e chora-se à tarde o que não foi possível obter de manhã.
Os portugueses, penso que o sabe, foram grandes como os espanhóis no passado. Actualmente, enquanto em Espanha se lutou e luta por mais e mais, pode-se afirmar que, vocês, procuram viver à sombra de chaparros, sentados às mesas dos cafés, etc, não conhecendo por isso os calos nas mãos ou o endurecimento dos músculos.
Outra coisa: no meu primeiro mandato, admire-se, havia vinte e cinco por cento de espanhóis que aceitavam invadir Portugal pela força da armas e trinta e cinco por cento eram indiferentes ao problema da invasão. Ora, eu não podia pactuar com semelhante loucura! Mas havia que dar uma resposta, uma vez que a ideia da invasão existia, e arranjei a solução: invadir Portugal sim, mas economicamente, com a venda de todos os nossos produtos; com a existência de bancos fortes para segurarmos o dinheiro e, com empresas, onde os vencimentos de quem nelas trabalha, seja de harmonia com os nossos interesses, como por exemplo, os nossos compatriotas que fazem férias no vosso país, tenham uma vida muito mais barata que a de Espanha.
Outro exemplo: Olivença é vossa, bem o sabemos. Mas não chega vocês o dizerem e sem nada fazer. Utilizardes as armas para a conseguir, tem que ser posto de lado. Resta-vos invadir Olivença da mesma forma que nós invadimos Portugal: pela via da economia. Logo, tendo nós hoje Portugal nas mãos como temos, vocês amanhã, da mesma forma, podem ter Olivença.
Lançar estruturas para a existência do turismo foi uma grande arma por nós utilizada. Temos bons hotéis, como sabe, comércio devidamente forte e organizado e uma indústria que faz inveja, actualmente, a alguns países Europeus. E em Portugal? Pouco, muito pouco se tem feito, devido à estupidez de políticos e à jactância de todos.
Desculpará o que lhe vou dizer a seguir, mas em Portugal consome-se muita filosofia importada, inveja e egoísmo. Sempre têm vivido de sorrisos externos e gostam de ser bajulados, mesmo que se use a hipocrisia.
Também não se pode dizer que sois um povo violento, aliás, como nós não somos. Mas por vezes, sem se esperar, ouve-se o vosso latir, o qual, como com os cães, é fácil de acalmar: a pessoa que tem de defender-se, pára, manda um sorriso com dois ou três tostões nas mãos, faz umas festas e, o vosso latir, fica-se para trás”.
O ex-Primeiro Ministro Espanhol, fez uma pausa. Eu, estupefacto, nada disse e, olhos nos olhos, aguardei poder ir-me embora. Então, o meu professor de ocasião, disse: - Deseja colocar-me outra questão?
- Bom, senhor ex-Primeiro Ministro. Fiquei esclarecido. Agradeço esta ajuda que me deu e ao meu país. Peço sinceramente perdão pelo tempo que lhe tomei. – Boa tarde, excelência!
- Um momento, peço eu agora ao senhor. – Acontece que devido a esta aula de política, de história, de economia e de sociologia de que beneficiou, deve-me cento e cinquenta mil pesetas, tendo já em conta o encontrão que sofreu, dado pelo meu filho – exigiu.
Sem fazer qualquer objecção, paguei o dinheiro indicado e não esqueci que era aluno e turista em terreno alheio.

Artur Soares

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