Arquivo: Edição de 29-09-2006

SECÇÃO: Generalidades

Excesso de razão e excesso de religião

Com a devida vénia, transcrevemos de “A Voz de Trás-Os-Montes” de 21.09.2006, o artigo em epígrafe, da autoria de D. Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real, sobre a polémica gerada à volta duma lição do Papa Bento XVI numa Universidade da Baviera, Alemanha.
Em muitos sectores continua a ser notícia o eco da lição que o Papa proferiu numa Universidade da Baviera durante a visita que fez à sua terra natal na Alemanha, onde havia sido professor de teologia durante anos. Nesse discurso Bento XVI exercia o seu ministério pastoral que é falar de Deus ao mundo de hoje, e, sendo uma lição dada numa Universidade, o Papa colocou-se no plano da cultura e da reflexão profundas.
Podemos sintetizar o problema da presença de Deus nos nossos dias dizendo que no Ocidente há uma carência de Deus e, no Oriente, parece haver um excesso de religião. Na cultura do ocidente Deus está ausente por um excesso de razão; na cultura do Oriente há um excesso de religião por carência de razão.
Nos dois casos há um desencontro da razão com a fé, um tema muito querido do Papa. No Ocidente a razão endeusou-se sob a forma neopositivista e experimentalista e expulsou Deus; no Oriente, Deus idolatrou-se na forma de uma paixão religiosa que impede o raciocínio. O excesso de razão no Ocidente deu origem, primeiro, ao iluminismo e ao Laicismo agressivos, e agora à Indiferença desanimada; a carência de razão no Oriente fez nascer a teocracia clássica e o fanatismo persecutório.
Explicitando melhor, no Ocidente o raciocínio humano tornou-se absoluto e concentrou-se no método experimental e laboratorial das áreas ditas científicas, e no raciocínio neopositivista da lógica matemática, e nenhum deles encontra Deus: o primeiro não Encontra Deus porque Deus não é uma coisa material perceptível no laboratório; o segundo também não O encontra porque, jogando Deus no tabuleiro do tempo e da eternidade, o seu jogo não se nos releva todo numa lógica que caiba no tempo e, como queremos saber todos os segredos, chamamos absurdo ao que é somente misterioso. Se não houvesse eternidade, então sim, poderíamos esperar que Deus nos tornasse claro todos os actos aqui na terra. A acrescentar a este absolutismo da razão há no Ocidente o absolutismo da liberdade, a liberdade de fazer tudo o que apetece ou que é tecnicamente possível.
No Oriente, pelo contrário, a atitude religiosa não passa pela análise racional, é uma religiosidade que tapa a análise lógica dos comportamentos e não deixa a razão humana respirar, não levando em conta o condicionalismo humano. A rigidez do esquema religioso informa toda a área do mundo, sejam actos de culto, sejam gestos políticos, sejam atitudes científicas, e considera blasfémia merecedora de castigo qualquer tentativa de reflexão das figuras e dos actos religiosos. Neste clima, a liberdade é substituída pela obediência total ou sujeição.
Deste modo, o Ocidente laico tem medo do fanatismo religioso do Oriente, e o Oriente tem medo do fanatismo laicista do Ocidente.
Que fez o Papa no seu discurso?
Lembrou aos ocidentais (de que a Alemanha é um símbolo filosófico e científico) que é necessário rever os exageros e desvios da razão, aproximá-la do religioso, o Logos tem de ser ajudado pelo Ágape; e lembrou aos orientais que é preciso rever o afecto religioso, que ele tem de ser humanizado. Ao Ocidente, o Papa lembrou que a razão tem de procurar Deus; ao Oriente, o Papa lembrou que a religião tem de procurar a pessoa humana e respeitá-la, mesmo que ela se engane. O Papa sabe bem do que fala, não só por conhecer bem a cultura moderna mas porque a Igreja já sofreu da doença de que sofrem ainda os Orientais.
Há cinquenta anos ouvia-se com alguma surpresa o filósofo cristão J. Maritain gritar que era necessário laicizar o pensamento político oriental sob pena de nunca mais haver diálogo religioso, nem paz, nem democracia política; e gritava também que era necessário humanizar o pensamento ocidental, desenvolver um “humanismo integral”, dar-lhe metafísica, para evitar a repetição das ditaduras nazis e marxistas, ambas ditas científicas e que já mostraram do que eram capazes.
O Ocidente continua a não ouvir o apelo à abertura da razão de Deus, e, em nome da razão científica e da liberdade, os ocidentais matam-se pela droga, praticam o aborto e eliminam alguns doentes. O Oriente continua a não ouvir o grito da necessidade de introduzir a laicidade na acção política e, por miticismo, alimenta o suicídio dos cidadãos e persegue os discordantes.
Por motivos opostos – uma razão abolutizada, sem fé, e uma fé abolutizada, sem razão –, em ambos os casos é a pessoa humana que sofre.

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