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Jornal O Conquistador
Edição de 29-06-2012
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SECÇÃO: Informação Religiosa

Consagração das Famílias na Ronda da Lapinha
No terceiro domingo do mês de junho, o domingo a seguir à festa de Santo António, a cidade de Guimarães é abraçada em clamor e prece por uma multidão de devotos que, saindo no início da tarde do seu santuário, situado a sudeste da montanha  de Santa Catarina, Penha, na freguesia de Calvos, só para na igreja da Colegiada como manda a tradição. E continua, após “esta visita” de cerca de hora e meia percorrendo o total de cerca de 21 quilómetros que o senhor Arcebispo Primaz, como pode ler-se adiante qualificou como meia maratona da fé, até chegar ao seu solar.
Este ano, na comemoração dos 400 anos de Ronda, a Irmandade de Nossa Senhora da Lapinha  em sintonia com o arciprestado de Guimarães e Vizela, quis assinalar a gratíssima efeméride com uma semana de sensibilização das paróquias com a presença da imagem da Senhora da Lapinha na primeira semana de maio para a reflexão sobre o tema atual e candente “a Família” e com uma conferência no auditório do Centro Pastoral de Guimarães “o papel da família no atual contexto social e económico” Porém, foi a cerimónia de Consagração das Famílias no Largo do Toural que marcou indelevelmente este ano jubilar da Senhora da Lapinha. O largo do Toural esbordou por todos as ruas confluentes para participar na cerimónia presidida por D. Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz: um coro de mais de trezentas vozes acompanhado pela Fundação Orquestra Studio, dirigido pelo maestro Rui Massena contribuiu para a expressão contagiante de fé bem sentida no ato da Consagração.
Interessante foi também a presença das imagens da Senhora da Oliveira, Senhora da Abadia, Senhora do Alívio, Senhora da Penha, Senhora da Madre de Deus e Senhora dos Milagres (Pontevedra).
Para memória ficam as considerações e o texto de Consagração do senhor Arcebispo Primaz.
Era uma vez, um grupo de agricultores que moravam numa freguesia nos arredores de Guimarães nos inícios do séc. XVII. A terra era tudo para eles: a sobrevivência, a economia, a profissão e a companhia de toda a vida.
Contudo, a certa altura houve uma grande praga de gafanhotos naquela zona, que devoravam as culturas agrícolas. No meio deste flagelo, os agricultores pegaram na imagem da Senhora da Lapinha, que se venerava entre umas lapas, e trouxeram-na até à igreja de Nossa Senhora da Oliveira, no centro da cidade. Seguiram em procissão e clamor, implorando, a estas duas invocações marianas, o alívio para as suas colheitas ameaçadas.
Curiosamente, quando os lavradores regressaram a casa, a calamidade tinha sido superada e, consequentemente, as colheitas tinham sido salvas.
Em consequência deste acontecimento, entendido como um milagre, os agricultores, residentes em torno do monte da Senhora da Lapinha, comprometeram-se a repetir esta peregrinação todos os anos, como forma de renovar e agradecer o auxílio às duas Senhoras, conferido na proteção das suas culturas agrícolas.
Passados 400 anos daquela que foi a primeira Ronda da Lapinha, cujos 21km constituem uma autêntica meia-maratona da fé, encontramo-nos hoje aqui na Praça do Toural, o coração da cidade de Guimarães, em ano de Capital Europeia da Cultura.
Viemos de longe e de perto para peregrinar com Maria, a Senhora da Lapinha, pelas ruas e estradas da nossa vida. Na presença das suas “seis irmãs”, que a devoção popular promulgou, a Ela queremos pedir a protecção, não só para as nossas terras agrícolas, donde brota o alimento, mas sobretudo para as nossas famílias, a terra donde brota a vida.
Viemos por causa de uma tradição, mas movidos pela fé que nos reconforta nestes tempos difíceis. Por isso, esta paragem, nesta praça simbólica da cidade, é momento para nos consagrarmos a Maria, colocando as nossas famílias no seu regaço.
Maria, a Mãe da Família, queremos consagrar-vos neste momento todas as nossas famílias! Consagrar, quer dizer: colocar em boas mãos, na certeza de que saberás gerar em nós a esperança humilde que acredita na aurora dum mundo mais humano. Embora o futuro pareça sombrio, contigo sabemos ser alegres na esperança, pacientes na tribulação e perseverantes na oração (1Rom 12,11).
Querida Senhora, sabemos que acolhes e, particularmente, te apercebes daquilo que temos no coração e não conseguimos exprimir; que assumes como teu o nosso viver, acolhendo-nos no vosso manto de ternura e que garantes que, crescendo na fé, não tenhamos medo do amanhã; que nos ensinas com os conselhos evangélicos, pois fizestes da tua vida um vazio total para acolher Cristo, o enviado do Pai e a Palavra do Amor.

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Recordamos-te, oh Estela do Céu, as famílias que lutam para honradamente encarar as suas responsabilidades, neste tempo social difícil de que não são totalmente responsáveis. Apresentamos-te as angústias dos desempregados que não conseguem dar serenidade e paz às suas famílias. Suplicamos-te pelos pais, primeiros evangelizadores, que em silêncio gastam as suas vidas pelos filhos. Rogamos-te pelos filhos, de um modo especial os que estão em época de exames e os que percorrem caminhos de delinquência. Confiamos-te os idosos, esquecidos ou abandonados, que não conhecem a carícia dos filhos que fogem à responsabilidade. Pedimos-te pelos doentes que ninguém visita e sofrem a solidão. E confiamos-te os lares onde a violência doméstica acontece e a educação humana esmorece.
Aos teus pés e com voz branda, suplicamos-Te um coração capaz de ver tantas misérias e procurar respostas de solidariedade! Não permitas a nossa indiferença e concede-nos o dom duma intervenção ativa na sociedade, capaz de anunciar a verdade e denunciar os erros. Que acreditemos na responsabilidade de ser fermento dum mundo novo!
Maria, tu que és a rosa mais bela do jardim da criação, concede-nos que as nossas famílias, que vos consagramos solenemente, sejam verdadeiras Igrejas Domésticas, capazes de gerar a vida e de a acolher com alegria e generosidade.
E sê para elas a causa da sua alegria: alegria que é Deus, o único a dar sentido e valor à vida! Pois como afirma o poeta Fernando Pessoa: “Ser feliz é reconhecer que vale a pena viver, apesar de todos os desafios, incompreensões e períodos de crise. É deixar de ser vítima dos problemas e tornar-se no autor da sua própria história. É agradecer a Deus, a cada manhã, pelo milagre da vida!”
Em ano de “Guimarães, Capital Europeia da Cultura”, e na comemoração dos 400 anos da Ronda da Lapinha, desejamos incutir nas famílias uma “cultura de beleza”, partindo daquelas palavras do Papa Bento XVI em Portugal: “fazei coisas belas, mas acima de tudo fazei da vossa vida um lugar de beleza!” Com Maria, enraizados em Cristo, sabemos que Ele nada nos tira, porque tudo nos dá!
E por tudo isto, façamos agora a consagração das nossas famílias e das famílias de todos os portugueses, rezando em comum:
Minha Senhora e minha mãe,
nós, as famílias desta terra de Santa Maria,
queremos consagrar-te, neste dia festivo:
os nossos cânticos e orações,
os nossos gestos e caminhos,
os nossos dramas e sucessos,
as nossas certezas e perguntas.
Em ano de capital europeia da cultura,
faz com que cresça nesta Europa
a autêntica cultura da humanidade,
que o teu Filho nos transmitiu:
a fé, a verdade, a vida e a beleza.
Tu que és a rosa mais bela do jardim da criação,
neste tempo de dificuldade gritante,
concede-nos o dom da solidariedade,
fruto da Palavra de Deus,
para que nos nossos lares
nunca falte o pão, o acolhimento, o sorriso e a partilha.
Que isto aconteça, Senhora dos nossos caminhos,
através duma verdadeira “cultura do dar e do dar-se”.
Abrigai-nos sempre no vosso colo maternal!
Ámen.

+ Jorge Ortiga,
Arcebispo Primaz de Braga

17 de Junho de 2012,
Praça do Toural (Guimarães).

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