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Jornal O Conquistador
Edição de 09-12-2011
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SECÇÃO: Generalidades

NATAL DE 2011
Este ano, o Natal começou cedo. Pelos “Santos” era costume vermos vendedeiras de castanhas assadas à porta dos cemitérios, misturando o seu cheiro aos das velas acesas e ao perfume um tanto adocicado das flores. Este ano proporcionou-me uma novidade: o som inconfundível dos cânticos de Natal que ecoavam nos anúncios da televisão, nos corredores das grandes superfícies comerciais e nas lojas de conveniência que anteciparam a abertura dos saldos para atrair os poucos euros ainda por gastar.
Estes anúncios extemporâneos do Natal convivem com os avantajados decotes estivais que existem mais para mostrar do que para esconder, ao som dos “jingle bells” das instalações sonoras. Haverá decerto quem goste: mas, para mim, há sempre uma impressão de falsidade, de qualquer coisa que não bate certo. Ainda se estivéssemos no Rio de Janeiro, onde o Natal se celebra em Copacabana…

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Para mim, para quem já tem mais de sete décadas de vida, estas novidades exóticas nada dizem. Ainda há dias, numa tarde do “verão de S. Martinho” ouvi com estranheza alto-falantes entoando: “Joy to the World, the Lord is come: let us receive the King” – “Rejubilemos todos, chegou o Senhor: vamos receber o nosso Rei”. E pensei com os meus botões: este pregão não tem razão de ser neste momento: o Menino Jesus ainda não nasceu; José e Maria ainda não chegaram a Belém; os Reis Magos continuam a sua peregrinação; os Anjos do céu ainda não foram enviados a anunciar a boa-nova; os pastores das montanhas ainda não foram perturbados pelo pregão dos mensageiros celestes; e a própria manjedoura do estábulo de Belém continua sem saber que foi predestinada a receber nas suas palhas o corpinho recém-nascido do Salvador do Mundo!
E abanei a cabeça: não, ainda não é altura de celebrar o Natal.
Hoje, nesta manhã de Advento, quando a Liturgia se veste de roxo para pedir às nuvens que chovam o Justo, apercebi-me que o Natal foi, há muitos anos, vivido com antecipação por Maria e José.
Já havia Natal na Anunciação, quando, por obra e graça do Divino Espírito Santo, Jesus foi habitar nas entranhas puríssimas da Virgem de Nazaré. E Maria adorou, a toda a hora e momento da sua gravidez, o Deus feito homem que vivia dentro de si; e José, ciente do mistério que envolvia a gravidez de Maria, contava os minutos que faltavam para que o mistério se concretizasse.
A expectativa desse nascimento acentuou-se no fim do tempo da gravidez quando fizeram uma viagem que os obrigou a deixar Nazaré, na Galileia, para se recensearem em Belém, a cidade de David, por ordem do Usurpador, de Roma, que um dia acordou, angustiado, porque não sabia, ao certo, quantos homens e mulheres tinha debaixo do seu jugo! Viajem longa, de cerca de 120 quilómetros, por caminhos de cabras e veredas esconsas, fojo de salteadores e refúgio de leprosos. As estalagens que encontravam (se é que as encontraram!) nada ofereciam além de um lugar para dormir e, talvez, uma lareira onde cozinhar. E estavam pejadas de gente que, como eles, demandavam Belém para o recenseamento.
E o Menino Jesus, que estava para nascer, esperou. Mas, a sua presença no ventre de Maria, fazia dele uma espécie de presépio. E aí já era Natal.
Quando terminaram a sua jornada, Maria e José entraram em Belém - uma terrinha insignificante onde nada tinha acontecido de relevante desde o dia em que aí nascera o Rei David, mas em relação à qual Miquéias profetizara: “Mas tu, Éfrata (Belém), embora sejas o menor dos clãs de Judá, de ti sairá aquele que será dominador em Israel”.
Mas Jesus, no ventre de Maria, apesar de ter vindo para o que era seu, constatou que “os seus não o receberam”, pois foi numa estrebaria que abriu os seus olhos pela vez primeira e viu um bocadinho da Humanidade que viera salvar: ao seu lado, aquecendo-o com o seu amor, estavam Maria e José. Escandalizados com tamanha pobreza, os autores dos Evangelhos apócrifos imaginaram que à cabeceira da manjedoura estavam uma vaca e um burrinho que aqueciam Jesus-Infante com o seu bafo. A Igreja, sempre tão preocupada com a credibilidade dos textos sagrados, desta vez fechou os olhos, e deixou que a arte de muitos séculos e a piedade de tantas gerações colocassem a vaca e o burrinho adorando o Menino. E ninguém se escandalizou por isso.
E o Evangelista concluiu: “E o Verbo se fez carne a habitou entre nós, e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade”.
Vem-me à memória aqueles versos que o Padre Zezinho cantava:

“Tudo seria bem melhor
Se o Natal não fosse um dia
E se as mães fossem Maria
E os pais fossem José
E os filhos parecessem com Jesus de Nazaré”

Por isso, mudei de opinião: todos os dias são Natal, desde que Jesus nasça, cada dia, no nosso coração.

Fernando José Teixeira
29 de Novembro de 2011

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